As fachadas desempenham papel estratégico na proteção das edificações contra a ação do tempo e dos agentes ambientais. Também contribuem para o desempenho térmico, acústico e de estanqueidade, além de exercerem função estética. Com o passar dos anos, porém, esses elementos ficam sujeitos ao desgaste natural e ao surgimento de manifestações patológicas, que podem comprometer tanto o desempenho quanto a segurança da construção.
O crescimento das cidades, a verticalização dos empreendimentos e a maior diversidade de sistemas construtivos também ampliaram a complexidade desse cenário. Edifícios mais altos e com geometrias diferenciadas estão expostos a condições de utilização e de exposição ambiental que podem exigir soluções técnicas compatíveis com essas características.
De acordo com o engenheiro civil Guilherme de Castro Gonçalves, sócio da Toten Engenharia e especialista em patologia das construções, diferentes fatores podem contribuir para o aparecimento dessas ocorrências. “As manifestações patológicas mais comuns nas fachadas estão relacionadas às características dos materiais empregados, às condições de exposição ambiental, às movimentações da edificação e às eventuais deficiências de projeto, execução e manutenção”, afirma.

Fissuras, descolamentos e corrosão estão entre os problemas mais frequentes
Entre as manifestações patológicas mais recorrentes, destacam-se as fissuras nos revestimentos, os descolamentos de argamassas e revestimentos aderidos, além da corrosão das armaduras das estruturas de concreto, processo que pode resultar em manifestações visíveis nas fachadas, como fissuras, manchas e desplacamentos. Cada umadelas apresentamecanismos próprios de desenvolvimento, e por isso, exige uma avaliação específica.
Nos edifícios mais antigos, a corrosão das armaduras representa uma das principais preocupações. O fenômeno pode estar associado à carbonatação do concreto e à ação de cloretos, sendo favorecido por características como elevada permeabilidade, fissuração e cobrimento insuficiente das armaduras, especialmente em construções executadas conforme critérios normativos de décadas anteriores.
A expansão dos produtos gerados pela corrosão provoca tensões internas no concreto de cobrimento, podendo resultar em fissuras, destacamentos e desprendimento de partes do concreto e, consequentemente, das camadas de revestimento.
Já os descolamentos de revestimentos costumam estar associados à deficiência de aderência entre as camadas do sistema construtivo, como por exemplo, falhas no preparo da base, execução inadequada ou ausência de camada de preparo quando especificada, incompatibilidade entre materiais, condições inadequadas de aplicação e degradação decorrente do envelhecimento.
As fissuras também apresentam diferentes origens

Algumas são consequência da retração das argamassas durante o processo de endurecimento. Outras podem acompanhar o contorno de elementos da estrutura ou da alvenaria, indicando possíveis movimentações diferenciais entre os componentes do sistema.
Mesmo empreendimentos recém-construídos podem apresentar essas ocorrências quando etapas de execução deixam de ser cumpridas corretamente. “Em muitos casos, essas ocorrências estão relacionadas ao preparo inadequado das bases, à incompatibilidade entre materiais, ao não cumprimento dos intervalos entre etapas e à redução dos tempos de mistura, aplicação, secagem e cura. A busca por maior velocidade de execução pode levar à sobreposição ou supressão de etapas importantes para o desempenho do sistema“, explica Gonçalves.
Tecnologia amplia as possibilidades de durabilidade dos revestimentos
Nos últimos anos, a evolução dos materiais e dos sistemas de revestimento trouxe ganhos importantes para a durabilidade das fachadas. Produtos industrializados podem proporcionar maior controle e uniformidade na produção e são desenvolvidos para atender requisitos específicos de desempenho, como aderência, deformabilidade, resistência mecânica e controle de absorção de água, conforme a finalidade de cada produto no sistema.
Entre as soluções disponíveis estão selantes com propriedades adequadas de deformabilidade para determinadas juntas e interfaces, hidrofugantes destinados à redução da absorção de água em substratos porosos, argamassas de reparo com retração controlada e sistemas de reforço que podem utilizar telas galvanizadas ou fibras de vidro resistentes ao meio alcalino. A escolha dessas soluções, entretanto, deve considerar as características do sistema existente, as condições de exposição e, principalmente, as causas identificadas durante o diagnóstico. A aplicação de um produto isoladamente não elimina necessariamente a origem da manifestação patológica.
O especialista também destaca a evolução das normas técnicas. A atualização da ABNT NBR 13281-1:2023 introduziu as classificações ARV-I, ARV-II e ARV-III para argamassas inorgânicas destinadas a revestimentos, considerando, entre outros aspectos, a altura da edificação nas aplicações externas. A classificação estabelece diferentes condições de utilização e requisitos de desempenho para edificações de diferentes alturas.
Recuperação depende de diagnóstico preciso
Embora muitas manifestações apresentem aparência semelhante, suas causas podem ser completamente diferentes. Por isso, a definição da técnica de recuperação deve ser precedida por uma investigação detalhada. “As soluções mais eficazes dependem, inicialmente, de um diagnóstico correto da manifestação patológica, com a identificação de suas causas, extensão, grau de evolução e consequências para o desempenho e a segurança da fachada”, ressalta.

Conforme a natureza e a extensão da manifestação, a avaliação pode incluir inspeção visual, ensaio de percussão, termografia infravermelha, ensaios de aderência e aberturas exploratórias para verificar as condições das interfaces entre os materiais. A partir desse diagnóstico, podem ser adotadas diferentes estratégias de intervenção, como remoção localizada dos revestimentos comprometidos, recomposição das camadas, instalação de telas de reforço, execução ou recuperação de juntas de movimentação e, em situações específicas, sistemas de injeção de resinas ou ancoragens mecânicas. Quando os problemas são generalizados ou o sistema apresenta comprometimento significativo, a substituição integral do revestimento pode representar a solução tecnicamente mais adequada.
Além da recuperação das anomalias, essas intervenções podem integrar projetos de retrofit. “Quando adequadamente projetada, a intervenção pode atualizar a linguagem arquitetônica, reduzir necessidades futuras de manutenção e contribuir para a valorização comercial e patrimonial do imóvel”, conclui.
Entrevistado
Guilherme de Castro Gonçalves é engenheiro civil graduado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e vencedor do Prêmio OAS/Mackenzie de Inovação, Produtividade e Empreendedorismo na Engenharia Civil. Atua como docente no curso de extensão de Patologia em Revestimento de Fachadas de Edifícios e em cursos de pós-graduação em Tecnologia de Fachadas e Revestimentos e Patologia nas Obras Civis, pelo IDD Educação Avançada. É sócio da Toten Tecnologia e Engenharia.
Contato:guilherme.castro@toten.org
Jornalista responsável
Ana Carvalho
Vogg Experience
Fonte: Cimento Itambé





