Seminário apresenta inovações em estruturas

Em pauta, cases emblemáticos e novos desafios

As inovações e o enfrentamento de questões atuais nessa área foram debatidos no 27º Seminário Tecnologia de Estruturas e Fundações, realizado pelo CTQ (Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP) em 18 de agosto, e que lotou o auditório da entidade.

Abrindo o evento, Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP, destacou que “mais uma vez, membros do CTQ se destacaram na escolha dos temas e palestras. Com isso, possibilitaram ao SindusCon-SP cumprir a missão de divulgar conhecimentos que aumentem a produtividade e fortaleçam as construtoras.” Agradeceu a Roberto Pastor, Jorge Batlouni e Roberto Clara, “pela brilhante organização deste seminário”, bem como aos palestrantes, patrocinadores, apoiadores e equipe do SindusCon-SP, “pela dedicação ao sucesso deste evento.”

Jorge Batlouni, vice-presidente de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP, destacou a longevidade do evento, e as inovações trazidas. Roberto Clara, coordenador adjunto do Grupo de Trabalho de Estruturas do CTQ e organizador do seminário, comentou que o evento aborda os temas atuais e agradeceu ao presidente do SindusCon-SP e aos palestrantes.

Alvenaria estrutural

Os desafios técnicos para edifícios altos de alvenaria estrutural foram apresentados por Cláudio Puga, fundador da Cláudio Puga & Engenheiros Associados. Historiou a evolução desses edifícios nas últimas décadas com custos atraentes, as providências para os edifícios resistirem ao vento e a utilização de paredes de concreto. Mostrou cases recentes, como o Arena Kazzas Itaquera 2, de 23 pavimentos; o projeto do Vibra Residencial, de 22 pavimentos, e um projeto para 26 andares.

O engenheiro destacou como pontos fundamentais na investigação por edifícios mais altos: blocos de concreto mais resistentes, resultados de ensaios mais confiáveis e arquiteturas estruturalmente mais adequada. Mostrou também projetos sem necessidade de peças de concreto, e um projeto feito para a Conx com 30 pavimentos. E informou que foi criada recentemente uma comunidade da alvenaria, reunindo projetistas, construtoras e fornecedores.

Estacas metálicas

Heitor Rodrigues Franco, gerente de Vendas de Construção Metálica da Gerdau, fez uma apresentação sobre tecnologia e desempenho de estacas metálicas para fundações urbanas. Historiou a evolução dessas estacas ao longo do tempo e dos equipamentos para sua cravação, desde o bate-estacas de Leonardo da Vinci até os eficientes martelos hidráulicos e os vibratórios.

Franco mostrou o desenvolvimento dos recentes equipamentos de apoio e tecnologias de monitoramento de vibração e ruído e controle da cravação, bem como cases dessas medições que comprovaram a redução do ruído de 15 a 20 decibéis, atendendo as legislações municipais. Exibiu soluções encontradas em obras desafiadoras na marginal Pinheiros e no Porto de Santos.

Seguiram-se debates moderados por Jorge Batlouni e Roberto Clara. Batlouni comentou que em alguns casos as estacas metálicas ainda não se mostram financeiramente viáveis. Puga informou que estão sendo desenvolvidos novos blocos para amarração na alvenaria estrutural.

Impacto do vento

No período vespertino, considerações sobre o impacto do vento em edifícios foram objeto de Aula Magna proferida por Ricardo Leopoldo e Silva França e Gustavo Bahia L. Fortes, respectivamente titular e sócio coordenador da França & Associados Projetos Estruturais. Explicaram que a velocidade do vento contemplada pela NBR 6123:2023 é de 144 km/h, portanto superior a uma recente rajada de 122 km/h registrada em Pradópolis, havendo ainda margem de segurança frente a ventos como o de 160 km/h que atingiram Ribeirão Preto.

Listaram como possíveis causas de acidentes em edificações a consideração inadequada ou não consideração dos efeitos do vento no projeto, a montagem equivocada de estruturas e a manutenção inadequada. Discorreram ainda sobre a evolução e os diferentes tipos de ventos, e mostraram que o perfil do vento sobre a edificação não é uniforme, bem como os possíveis efeitos. Apresentaram a proposta do engenheiro Mathew Wallis, com o apoio da Abece, para a revisão da norma técnica. Falaram sobre o que apontam os ensaios em túneis de vento. Ao final, mostraram como se projetar uma estrutura resistente ao vento e as providências relativas à construção de edifícios altos, garantindo conforto aos usuários.

Qualidade do concreto

O controle efetivo da água por hidrômetros digitais para qualidade do concreto foi discutido por Allyson Paulo Schiavinato, superintendente técnico nacional na Supermix Concreto. Mostrou o impacto da água na resistência dos concretos 40 MPa e 50 MPa, o efeito do tempo nessa resistência. Discorreu sobre a NBR 712 e comparou a dosagem da água feita na central dosadora, no caminhão betoneira e com o hidrômetro digital, com orientações e alertas ao motorista, acompanhamento por telemetria pelo operador de central, e redosagem após a descarga.

Schiavinato apontou como benefícios do hidrômetro digital: maior controle, ganho de produtividade com menor tempo de redosagem em obra, rastreabilidade total da adição de água na carga de concreto, rastreabilidade de redosagens indevidas, controle em tempo real do prazo de validade do concreto, menor risco de manifestações patológicas ligadas ao excesso de água, redução do desvio padrão, e maior transparência entre construtora e concreteira mediante registros rastreáveis.

Solução em subsolo

Alberto Porto, diretor de Operações da Consultrix, e Daniel Perota, gerente de contratos da Afonso França Engenharia, discorreram sobre o desafio geotécnico de construir o Complexo Hospital Sabará Rebouças próximo à Linha Amarela do Metrô de São Paulo. Ante um subsolo predominantemente arenoso, em declive e com lençol freático, a solução inicial de escavação foi utilizar parede diafragma, talude provisório e Top Down na região da projeção do túnel do metrô, e tirantes provisórios nas demais regiões.

Após a preparação do terreno, houve revisão para cinco subsolos, o que levou a aumento do talude provisório e afastamento maior do túnel. Utilizou-se Jet Grouting para estabilizar a ficha da parede diafragma. O projeto final incluiu estacas, barretes e perfis metálicos. Inicialmente executou-se uma fundação provisória, NPR e Ecoryon foram injetados nos tirantes. Para a construção, foram enfrentados desafios como a execução de escavação invertida e a contenção de subsolos a 2 metros do túnel do metrô.

Desafios da arquitetura

A arquitetura desafiando o concreto na construção do icônico edifício 280 Art Boulevard em São Paulo foi o tema da palestra de Eduardo Zaidan, presidente executivo do SindusCon-SP e diretor de obras especiais da RFM, e Fabrícia Ferreira Passos, gerente nacional de Tecnologia da Engemix.

Eduardo Zaidan apresentou as características da obra de 31 mil m²: 32 lajes, 11 mil m³ de concreto e 1.600 t de aço com barras; uma viga de transição com 130 m³ de concreto, dois pilares com 7º de inclinação, outras vigas de transição e itens da estrutura. Na fundação, foram utilizadas paredes-diafragma com 240 m de diâmetro, 3 mil m³ de concreto, 15 t de aço, 375 tirantes em 5 linhas, com retirada de 51 mil m³ de solo. A sapata principal tinha 1,2 mil m³ de concreto com gelo, 200 t de aço, 2,5 mil luvas de emenda de aço, 11 mil pontos de solda e 4,5 m de altura.

Zaidan discorreu sobre a concretagem das lajes protendidas. Relatou a operação das duas gruas, uma delas com substituição da lança, por exigência do Comaer, a partir de determinado andar – há dois helipontos nas proximidades. Para escoramento dos balanços negativos, foram desenvolvidas treliças especiais, com trilhos que possibilitaram sua retirada dos balanços.

Outro desafio foi atender a uma exigência de cliente e mudar a posição do pilar no 24º andar, com utilização de concreto 120 MPa. Para tanto, Fabricia detalhou as etapas até se chegar à mescla adicional de aditivos incluindo sílica líquida, além da adição de gelo diante das altas temperaturas previstas no dia da concretagem. Fizeram-se simulações em escala real e testes em laboratório. Dois técnicos da concreteira foram disponibilizados, um na usina liberando as cargas e outro na obra liberando a descarga. Devido ao trânsito, a concretagem foi programada para um sábado, com os caminhões-betoneira chegando em sequência para garantir descarga constante. Formas prontas e uma manta para cura foram disponibilizados, e um espaço na obra foi reservado para moldagem. A engenheira ainda listou os cuidados de controle tecnológico, e a avaliação dos resultados do rompimento simultâneo dos corpos de provas em quatro laboratórios.

Seguiram-se debates, mediados por Batlouni e Clara. Schiavinato lembrou que concretos de maior desempenho já chegam prontos e precisam de atenção da construtora para sua aplicação. Perota e Zaidan destacara a necessidade de reuniões periódicas com as contratantes em relação aos desafios, prazos e custos que vão se apresentando ao longo da obra. França destacou a importância de o projeto arquitetônico caminhar junto com os testes de túnel de vento, para que o projeto seja aperfeiçoado se necessário, e demonstrar ao usuário final que a melhor técnica foi empregada. Ele ainda preconizou o estudo de concretos de até 180 MPa em edifícios altos.

Proteção perimetral

O sistema Sare Up, de proteção perimetral na construção civil, foi mostrado por João Carlos Fonseca Junior, diretor de Operações da Ulma Construction no Brasil. Segundo o engenheiro, o sistema, com fechamento contínuo e sem frestas, não necessita de instalação por grua e vai acompanhando a execução da estrutura. Assim, proporciona segurança integral, economiza tempo, reduz custos e aumenta a produtividade da obra. É utilizável para fechamento do vão entre o sistema e a forma da laje ou a laje concretada; possibilita fechamento com telas em ângulo; pode resolver saliências; permite a abertura de vãos para a colocação de plataforma destinada à extração de materiais. Fonseca ainda mostrou diversos cases de aplicação em Madrid e outras cidades da Espanha.

Concreto e madeira engenheirada

O híbrido concreto pré-fabricado e madeira engenheirada na obra corporativa do Henkel Latam Inspiration Center foi apresentado por João Carlos Leonardi, sócio da Leonardi Pré-Fabricados, e presidente do Conselho Estratégico da Abcic. Exibiu diversos projetos de estruturas executados pela Leonardi. Segundo Leonardi, foi utilizado o melhor de cada sistema. Na obra do Henkel Latam, a empresa entrou com os pré-fabricados de concreto com função estrutural para vencer grandes modulações e suportar cargas elevadas, com utilização de concreto 60 MPa com pilares de 50×60 cm e lajes alveolares H21. Já a Crosslam utilizou madeira engenheirada com função estrutural e usou adesivos estruturais de ponta da Henkel. Um núcleo de concreto foi feito para aumentar a rigidez da estrutura de madeira.

José Alberto C. Gonçalves Filho, diretor sócio da Crosslam, mostrou o que foi feito em madeira engenheirada em lajes, pilares, escadas e cobertura na construção do Edifício Administrativo Henkel. Destacou a precisão dos elementos pré-fabricados que possibilitaram a execução perfeita das obras. Para tanto, ensaios em dimensão real foram realizados. A montagem da parte de madeira da edificação demandou o trabalho de apenas seis trabalhadores, incluindo o operador de guindaste. Mostrou também a execução e preparação da madeira off site, com o uso de robôs, os cuidados para assegurar seu desempenho e qualidade, e as etapas de montagem na obra. E exibiu outras obras com madeira engenheirada da Crosslam.

Obra industrializada residencial

O case do Makai, a maior obra industrializada residencial de alto padrão do Brasil, foi apresentado por Felipe Cassol, diretor de Engenharia do Makai e sócio da Cassol. Localizada na praia do Campeche em Florianópolis, a obra tem cerca de 64 mil m² de área e 37 m de altura e 15 mil m³ de concreto. Sistemas de lajes alveolares foram empregados com ações que reduziram custos. Ligações de continuidade simples e precisas entre vigas e pilares permitiram que os elementos estruturais trabalhassem de forma integrada, proporcionando melhor distribuição dos esforços entre os componentes do pórtico. Foram feitas consoles embutidos tipo Gerber, viga de fachada com aba arquitetônica, pilares de fachada com balanço, pilar arquitetônico de transição em V, e sistemas industrializados e/ou racionalizados no Makai. Ao final, Cassol mostrou os benefícios do pré-fabricado em termos de produtividade, redução de processos manuais, e de desperdícios e retrabalhos, e velocidade de execução, entre outros.

Nos debates que se seguiram mediados por Batlouni e Clara, Fonseca Jr. informou que os sistemas de proteção já são entregues completos. Gonçalves relatou que os brises de madeira têm um tratamento especial contra intempéries e demandam uma manutenção periódica de 3 a 4 anos. Leonardi afirmou que hoje o “pré-fabricador” precisa realizar o que o arquiteto projeta e negociar o preço com o incorporador, o que pode resultar na combinação de vários sistemas industrializados entre si e mesmo com a construção convencional. Isto demandará que muitos engenheiros passem a se familiarizar com o pré-fabricado. Para Cassol, projetistas também precisam se aculturar, bem como gestores de obras, e os patrocinadores, sejam incorporadores ou fundos de investimento. Segundo ele, o incorporador deve primeiro contratar um “pré-fabricador”, para depois seguirem juntos em busca do arquiteto.

Fonseca Jr. disse esperar que a reforma tributária traga redução de custos para o setor. Leonardi disse a Abcic está estudando a questão para demonstrar isso com clareza, bem como providenciando Declarações Ambientais de Produto e trazendo inovações em pré-fabricados do Exterior. Já Cassol considerou que a reforma vai ajudar quem fornece elementos pré-fabricados, e defendeu que os pequenos sejam estimulados a se tornar grandes.

 ​Fonte: Sinduscon-SP

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